Que tal a gente usar esse tópico para falar de concertos?
Começo eu
Leif Ove Andsnes, piano solo
Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 17/03/2026
Chopin
4 Mazurkas
Leos Janáček
Por um caminho recoberto
Chopin
Prelúdios op. 28
Em um concerto adiado do ano passado, o pianista norueguês Leif Ove Andsnes apresentou um programa muito bem escolhido no Municipal do Rio de Janeiro. O repertório era o mesmo que ele tocaria no ano passado e é parte de suas especialidades.
Das Mazurkas foi feita uma seleção de top hits, não consigo me lembrar de cabeça todas, mas terminou com a op. 30 no. 4. A leitura de Andsnes (que terá uma constante ao longo da noite) privilegia uma contenção e sem grandes arroubos popularescos. Me explico melhor. Uma leitura possível das Mazurkas seria de lê-las como danças populares e valorizar esse elemento dançante. Essa não é a leitura que ele faz, ele privilegia o aspecto poético, partindo de um toque límpido, claro, grande gama de sons (os crescendi e diminuendi dele são excepcionais), diria mais para seda do que para veludo, se vcs quiserem uma metáfora. Aquela valorização da passagem do segundo para o terceiro tempo — típica das Mazurkas — ele faz seletivamente, apenas onde o caráter popular se destaca mais. É uma leitura correta, chamaria de contemporânea de Chopin.
O Janáček foi a peça que eu mais esperava. Andsnes foi aluno de Jiri Hlinka, pianista tcheco naturalizado norueguês, e tem ao longo de toda sua carreira uma ligação forte com Janáček, tendo gravado quase tudo para piano solo (o que não é muita coisa). A leitura de Andsnes, no entanto, eu chamaria de peculiar, ele prefere amaciar as repetições, as células rítmicas, em favor de uma linha mais longa. Um exemplo claro está na repetição do primeiro tema da primeira peça do ciclo, Nase večery, onde a célula repetitiva da mão direita são quase como um eco, enquanto a progressão harmônica da direita flutua por cima. É uma leitura possível, válida e bonita, apenas não é a minha leitura. Aqui o contraste com a gravação de Rudolf Fikusny fica claro, Fikusny gosta do contraste, do choque, tem aquele martelado, que Andsnes corta totalmente. Excelente, mas diferente de como imagino Janáček. Dito, isso a precisão rítimica de Andsnes é admirável e nas peças em que isso é mais exigido, um exemplo é na segunda peça, Lístek odvanutý, com aquele ritmo incrivelmente rápido, que é executado com perfeição.
Os prelúdios confirmam essa escolha interpretativa, o prelúdio em ré bemol maior, o famoso “pingo d’água”, tem um ostinato insistente também, que ele amacia — nesse caso eu diria que mais conforme ao idiomatismo romântico de Chopin, mas revela suas escolhas estilisticas. Apesar de uma imprecisão ou outra no começo dos prelúdios, depois ele se acertou e foi muito bem. O último preludio, em ré menor, fechou de maneira magnífica o concerto.
De bis teve o estudo op. 10 no. 4 de Chopin, que foi talvez o ponto alto da noite, incrível fraseado, muito polido, e uma peça lírica de Grieg (não conhecia), fazendo dos três compositores, Grieg, Chopin e Janáček, três das especialidades do artista.
Bruno

