Gostaria de saber a opinião de vocês sobre música eletroacústica. Vocês consideram uma vertente da música clássica (não gosto desse termo, mas acho passável), música concreta, o quê? Se sim, o que ouvem, bora discutir?
Tive um semestre inteiro de aulas de música eletroacústica na graduação, com Flo Menezes, e outro semestre inteiro na pós, com Rodolfo Coelho de Souza. Então sou suspeita pra dizer que aprecio muito.
Ou melhor, entendo que o meu gosto pela eletroacústica se deve, em grande parte, ao que tive a oportunidade de estudar sobre o assunto. Será que é assim também para quem a encarou racionalmente?
Então tenta explicar proa leigos qual é a logica dessa música, porque me escapa completamente.
O que eu mais aprecio na eletroacústica é a possibilidade de criar novos timbres. Quer dizer, além de todos os instrumentos musicais existentes, para os compositores ainda surge a oportunidade de misturar harmônicos de um jeito novo, jamais obtido com os instrumentos musicais tradicionais.
Mas tem outras coisas que aprecio. Por exemplo a riqueza de alturas. Dá pra empilhar tudo com tudo, sem precisar alterar o ensemble. Um agudo e um grave simultâneos, ambos com jeitão de fagote? OK, é factível.
Outra. Durações sem depender de técnica. Um sopro de três minutos sem respirar é praticamente impossível. Ou o contrário, um arpejo em 220 bpm no piano. No computador vc pode.
Falo como compositora e como plateia. Pra mim esse é o grande “uau” da eletroacústica.
Então é um conceito “amplo”, eu tinha na cabeça que eletroacústica eram só aquelas músicas que trabalhavam com sons pré gravados e editavam esses sons. Não sei o nome disso.
Então coisas como Kontakte do Stockhausen (e basicsmente tudo dele) e Répons do Boulez entram nesse conceito. Se sim, eu ouço também. Acho Répons talvez a peça mais fascinante do Boulez.
E peças que trabalham com microfonia, como a Sinfonia de Berio e os sussurros da Saariaho, entram aí tbm, ou é outra coisa?
Acho que lembrei do conceito: música concreta. Mas fica a dúvida, essas versões mais light contam como eletroacústica?
Ao meu ver, contam. Tudo que envolva algo que o som possa ser manipulado eletronicamente pra mim é música eletroacústica. A música concreta acho que pode ser também, mas ela envolve a exploração de outros tipos de som, como barulhos de coisas, panelas caindo, gotas de água, canto de pássaros, mas algo que surja não eletronicamente.
Sim, a eletroacústica é um conceito amplo. Vou tentar sistematizar em quatro vertentes, digamos assim.
Uma delas é a geração pura e simples de sons por máquinas, comandadas - claro - por seres humanos. Um exemplo é a primeira obra do tipo feita por Luigi Nono nos estúdios da RAI (Radio Audizioni Italiane), Omaggio a Emilio Vedova, for tape (1960)
Outra ê a gravação de sons de instrumentos que, posteriormente, são inseridos em computadores e tratados através de programas específicos. Creio que esse procedimento é o mais conhecido, já que também alimenta os teclados eletrônicos.
Mais uma, que tem a ver com o que você citou, da Saariaho: trabalhar gravações de vozes humanas, ou de instrumentos, para alcançar algum efeito almejado. Acrescentar ou retirar uma frequência, por exemplo. Exemplos de Stockhausen ou de Ligeti não faltam.
Por fim, o que se chama de música acusmática, que é a difusão por várias “caixas acústicas” (pra usar um termo da nossa época) instaladas em um espaço de audição devidamente estudado para essa finalidade, como um auditório, por exemplo. Difusão do que? De composições feitas no computador e mixadas por “mesas de som” acopladas também a um computador. Essa é executada (difundida) ao vivo, em ambientes sem iluminação.
Música concreta não tem a ver com a eletroacústica. Quer dizer, tem a ver com microfones e gravadores, mas não “manipula” o som gravado, para usar o termo que o Calleres colocou. Só recorta o ataque inicial para que não se associe imediatamente o som à fonte que o gerou. É um conceito desenvolvido por Pierre Schaeffer no começo dos anos de 1950, se bem me lembro. Editando: tem uma obra muito interessante que ilustra bem a música concreta:
Acho que Répons do Pierre Boulez é um excelente exemplo desse tipo.
Uma delas é a geração pura e simples de sons por máquinas, comandadas - claro - por seres humanos.
Seria o caso da famosa fita magnética de tantas obras dos anos 60. Certo? Kontakte se bem me lembro é quase exclusivamente assim.
Não lembro bem de Kontakte, mas tenho quase certeza que é mista.
Répons não conheço.
