Essa questão é interessante. Minha história com mídias físicas segue mais ou menos a história geral, eu não nadei contra a corrente.
Como todos, até mais ou menos 2005 eu só usava mídia física, exceto quando baixava MP3, mas mesmo nestes casos era muito comum eu gravar um CD com as músicas que eu queria ouvir. Em 2005 ganhei meu primeiro MP3 player e pela primeira vez em uma viagem eu dispensei levar CDs. Mas o player tinha capacidade baixa, cabia uns 3 álbuns se muito, mas já foi o primeiro avanço.
Em 2006 tive meu primeiro iPod (quem lembra?) e o avanço foi enorme, ele tinha 4GB de armazenamento, o que, à época parecia enorme. Aí a dinâmica era clara, colocar o CD no iTunes e transferir para o aparelho. Inclusive o iTunes servia como um hub para organizar a biblioteca. Como sou muito baguncado, minha biblioteca sempre foi uma bagunça. Em 2008 tive meu segundo iPod, com 20GB de capacidade.
O mp3 player e sobretudo o iPod ajudaram a cristalizar uma nova forma de consumo musical, que temos até hoje: ouvir música [i]on the go[/i], na rua, lavando louça, correndo.
Com a chegada dos smartphones e o aumento das memórias flash, a mídia física para computadores começou a cair, os notebooks passaram a vir sem drive de CD. Assim, naturalmente, fomos perdendo o uso. No meu caso, eu era recém contratado, em yma cidade cara, nao tinha dinheiro para investir em aparelho de som, acabei me acostumando a ouvir música no computador, no iPod e, depois, no smartphones.
A iTunes criou sua loja, que tinha uma diversidade razoável, eu comprei alguns mp3 lá (lembro da integral de Bruckner com o Barenboim). A experiência foi transitando cada vez mais ter a mídia física como arquivo e menos como o lugar de onde se ouve.
O YouTube cresceu muito, com acesso a gravações não publicadas, inéditos, gravações fora de catálogo, todo um mundo, o que também foi nos acostumando a ouvir online.
Quando vieram os sistemas de streaming foi o que mudou, eu simplesmente tinha acesso a um catálogo enorme, com possibilidades virtualmente inesgotáveis. Rapidamente o ultimo lugar onde ouvia música em mídiafísica era no meu carro com aparelho de som de 2009, sem conexão Bluetooth ainda.
Quando troquei de carro e ele também veio com um aparelho de som sem CD, acabou, eu nunca mais ouvi um CD. Tenho ate uma data para isso 28/12/2016 (logo farão 10 anos…).
Vendo em retrospectiva, minha história — que deve ser comum — não é de uma escolha [b]consciente[/b], mas sim de perda gradual de lugares para ouvir, bem como mudança de hábitos induzida pelas novas tecnologias. A indústria escolheu para mim que os ambientes em que ouvia CD (player móvel, som automotivo, computador) não aceitariam mais mídia física e eu fui atrás. Eu aceitei em parte devido às facilidades (menor volume, maior catálogo).
Pensando agora, isso foi algo positivo? Tenho pouco de original a acrescentar, mas acho relevante dizer.
Em primeiro lugar tem a qualidade do audio, a qualidade do audio da maioria dos streamings é fraca, pior que um CD. É herança do velho padrão mp3. A qualidade acaba tendo influência na experiência, sobretudo de música orquestral: alguns detalhes se perdem no tecido orquestral. Isso pode parecer coisa pouca, mas vai se somando.
Em segundo lugar, o desaparecimento da audição atenta e concentrada, que é algo universal,.também aponta para uma perda de qualidade na audição, música complexa, Wagner, Bach,.Mahler, dificilmente fica bem quando você está correndo, na academia, no trânsito. Essa mudança foi induzida por todo a mudança tecnológica — nao intencional, penso, mas com consequências concretas não triviais.
Em terceiro lugar, a questão da propriedade, nós nao temos posse da música, quando muito temos uma licença da apple, do spotify, na maioria das vezes temos apenas acesso a um catálogo, e podemos perder facilmente se houver alguma mudança jurídica.
Em quarto lugar, o.sistema trouxe uma degradação do mercado musical. Antigamente o dinheiro ia para a gravadora, depois para o artista, as gravadoras controlavam e ficavam com a maior parte do corte, hoje quem fica com essa parte é o sistema, que paga pouco e dá coisa insignificante para os artistas. Isso teve consequências nefastas, tanto que mal há gravações de estudio novas de musica orquestral e ópera, economicamente compensa pouco.
As vantagens são apregoadas pelo mercado, mas esses pontos são relevantes. Eu elenquei os problemas, mas consumo exclusivamente música em streaming hoje. É preciso ter consciência das perdas que enfrentamos hoje.